GP de Monza - O segundo passo da redenção de Pierre Gasly

Atualizado: Jan 3

Francês estava no lugar certo, na hora certa e quis o destino que, pouco mais de um ano após o conturbado rebaixamento à AlphaTauri, o piloto estrelasse no lugar mais alto do pódio


*Isamara Fernandes

(Foto: Jenifer Lorenzini/Getty Images)


O universo do esporte é fascinante, independentemente da categoria. As histórias que o envolve fazem dele, cada vez mais, compenetrante. Quanto mais próximos ficamos do lado humano dos ídolos, mais os sentimentos ficam à flor da pele. O espectador mergulha nas voltas por cimas, nas dores, nas conquistas improváveis e nos legados criados. Na redenção.


Vamos voltar no tempo, não muito longe, 14 de agosto de 2019. A dança das cadeiras da Fórmula 1 fazia mais uma vítima, desta vez, o francês Pierre Gasly. O jovem piloto via, naquele dia, a escada rumo à afirmação na categoria perder alguns degraus. Ele estava sendo rebaixado à Toro Rosso - atualmente, AlphaTauri.


Não vamos entrar na discussão se foi justo ou não e nos atentar apenas ao fato: Gasly dava um passo atrás. E regredia da forma mais dura possível: sendo subestimado. Tendo o potencial, e o merecimento de fazer parte do alto escalação do automobilismo, colocado em cheque. Mas, dar um passo atrás na visão do senso comum, muitas vezes significa, garantir no futuro dois à frente. E a máxima nunca foi tão levada ao pé da letra.


Era hora de encarar os julgamentos, a readaptação e os monstros internos. No meio do percurso, Gasly perdeu um companheiro de forma brusca, da forma que arrepia a espinha de quem entende que, a pessoa entre o volante e o banco do carro que atinge velocidades na casa do 300km/h, está sujeita a qualquer momento.


Porém, Pierre só não imaginava que o primeiro, dos dois passos, viria tão cedo. Brasil, 2019. O segundo lugar do palco mais cobiçado, o pódio. E segurando o iluminado Lewis Hamilton naquele dia.

(Foto: Dan Istitene/ Getty Images)


Mas ainda faltava o segundo, faltava a justificativa da compreensão que o retrocesso era, sim, parte da história do francês. Era parte da construção de um herói - não no sentindo literal, daqueles que voam ou conseguem ler mentes - mas da figura que enfrenta dificuldades e, no fim, prova que é capaz.


E ele veio. Veio na temporada em que o piloto de 24 anos apresentava a maior constância, até então. Entre as batalhas do meio do grid, e dentro da realidade, apresentava um desempenho sólido. Veio no dia 06 de setembro de 2020. Monza, Itália.


Vamos voltar a mais uma máxima para definir a corrida mítica sediada na casa da tradicional Ferrari: "lugar certo, na hora certa". Um dia, a sorte vem, desde que os astros e a competência estejam alinhadas.


Para a Mercedes errar, só mesmo um evento fora da órbita terrestre poderia proporcionar. E aconteceu. Mas vamos entender como. Keving Magnussen e o problema com algo quebrado no carro da Haas geraram uma bandeira amarela e um safety car. Lewis Hamilton, que liderava com certa folga, a 10s de Carlos Sainz, segundo colocado, parou para a troca de pneus.


No entanto, Hamilton, ainda não era permitido parar. Punição de 10s - stop and go. A faceta da corrida já mudava a partir dali, afinal, todos sabiam que o, quase, imbatível Lewis iria figurar entre os últimos colocados. Já era diferente o suficiente para cravar como uma corrida inesquecível - Bottas também havia demostrado, logo no início ao cair de segundo para sétimo, que algo de anormal pairava no ar italiano.


Mas, Charles Leclerc colocou a cereja do bolo. Não da forma como a maioria dos fãs de Fórmula 1 desejam - o monegasco bateu forte nos pneus de proteção, causando uma cena impressionante aos olhos de quem viu. Mas colocou. Bandeira vermelha, sessão paralisada por 30 minutos.

(Foto: Scuderia Ferrari)


E foi a partir daí, que o segundo passo de Pierre Gasly veio. Lance Stroll, até então segundo colocado, errou. Passou direto, se recuperou, mas viu a oportunidade de vencer escapar pelos dedos, literalmente. Hamilton parou. Gasly ultrapassou. E a batalha contra todos os pesadelos tinha tomado forma, nome e um sotaque: Carlos Sainz.


O espanhol da McLaren vinha voando baixo logo atrás de Pierre. Curva por curva, volta por volta. Cinco voltas para o fim. A RedBull, Helmut Marko e toda a pressão vinham com o carro laranja que insistia em diminuir o tempo. 1.2. 0.8 DRS liberada. Duas voltas.


Não existia mais administração dos pneus desgastados, nem mais ninguém à frente. Pierre pilotava no modo emoção. Se o modo festa havia sido banido, o modo sentimento estava mais do que presente no motor daquela AlphaTauri. Êxtase. Do décimo lugar, para o posto mais alto do pódio.


Comemora, Gasly. Comemora. Um passo para trás para dar dois à frente. Na luta, no suor, na batalha. Na pista. O francês fez a ultrapassagem mais bonita que ele poderia ter feito durante toda a carreira. Jogando limpo, ele deixou para trás quem duvidou da capacidade e o desmereceu.


Sabe aquela história do começo? Que o universo do esporte é cheio de histórias que prendem os espectadores de forma única? Então, a redenção é a nossa favorita. E desta vez, foi a de Pierre Gasly.


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